|
|
--A vida é feita de muitos
momentos, de muitos Amigos, de muitas experiências, de muitos sorrisos, mas
também de muita dor, dor que o teu coração absorve, mas que a tua mente se
revolta.
--Se sou dono do meu
coração, porquê então a mente prevalece e se revolta?
--Quando abriste os olhos
para o mundo que te ia receber temporariamente, eu vinha contigo, eu trazia o
coração do tamanho do mundo, o coração de quem tem um Espírito de Criança, e
assim permaneci em ti, e tu em mim.
Tu porém caminhaste comigo
durante algum tempo, até que a mente te ordenou que a seguisses, ou então, a
sociedade não tinha lugar para ti, não tinha lugar para um Espírito de
Criança que segue sempre o seu coração.
A mente não sabe o que é um
Espírito de Criança, porque não tem coração.
Não quer saber se tens um
plano de vida, não quer saber quem tu realmente és, não quer saber se tu
existes, não quer saber qual é a tua vontade.
Quer apenas usar-te, quer
apenas que tu sigas o que ela já criou para ti.
--Tu não fazes nada!
-- Que pode um Espírito
de Criança fazer?
Quando a sociedade
diz que sou irresponsável, que apenas vivo à custa da mente trabalhadora!
A sociedade que criaram
não consegue resistir ao ego, não consegue resistir às muitas coisas que lhe
aliciam o caminho.
Um Espírito de Criança como eu dança num ventre de uma ousada mulher, que escolheu para ser sua mãe.
Projecta-se
para fora do espaço e tempo.
Ri e brinca com os Amigos.
Não leva nada a sério,
porque sabe que tudo não passa de um longo Jogo de constantes aprendizagens.
Não luta para fazer parte
de uma sociedade, que vive de um passado carregado de emoções.
Não está dependente do bem
e do mal, para ela tudo são experiências, tudo faz parte da sua longa vida.
Nunca dorme, para vigiar
quem anda adormecido.
Sai pela calada da noite
para seguir a voz do silêncio, a sua verdadeira fonte.
Nunca luta pela verdade,
porque ela a verdade.
![]() Não alimenta religiões nem os fanatismos doentios. Resiste à tentação do mundo aparente. Não se ilude com a vaidade humana, porque ela sabe que lhe retira a visão do mundo Espiritual, a sua verdadeira origem. --Porque perdi tudo isto! --Não perdeste. Se tivesses perdido eu não estava aqui contigo. --Os teus olhos não me enganam. Mas o meu coração está sofrido, sofrido porque escolhi muitos caminhos, mas nenhum teve o coração de que tu falas! Falas uma linguagem que a minha mente não entende. Mas no fundo da minha Alma o meu coração diz-me que és tu. Que podes fazer por mim? --Nada meu querido Amigo! Se alguma coisa há a fazer, és tu quem o tem de fazer, e não eu. --Fazer o quê? --Adormecer a mente. Abrir o coração à vida. Uma vida com muitos caminhos. De muitas experiências. De muitas mentes. De muitas sociedades. De muitas religiões. De muitas crenças. De muitos homens. Mas somente um coração, tão-somente um Espírito de Criança livre como o vento, rebelde e livre como o rio que corre para o mar. Livre como sempre vivi, tão perto e tão longe de ti. -- Não podias ter-me acordado do meu longo sono? --Como podes acordar alguém que não quer ser acordado! --Esse sono é assim tão profundo? --O sono que adormece a Alma errante não pertence aos poetas, e eu sou um poeta. --Pensava que apenas tinhas um Espírito de Criança! --Os poetas que escrevem com a Alma têm um Espírito de Criança. --Apenas os poetas?
--Não, não apenas eles...tu
também.
--Será possível ainda tomar
essa consciência?
--Um filho nunca perde essa
consciência.
--Filho?
--Estou a falar do teu
verdadeiro filho, não o que vive pela mente, mas do outro que vive pelo
coração,
que está neste momento à
tua frente.
--Pensei...que fossemos
irmãos!
--Que diferença faz?
Não são os filhos também
irmãos, não são os irmãos também filhos!
--Falas uma linguagem
simples.
Diz o meu coração.
A mente porém diz que és
um sonhador que mal conhece a vida.
A mente diz-se ser mais responsável do que um simples olhar irreverente de um Espírito
de Criança,
que alimenta a tua Alma,
não passa de uma fantasia.
--Tu falaste pela voz da
mente, ela tomou o seu lugar aparente.
Traçou caminhos que tu
seguiste, caminhos mentais cheios de armadilhas.
Ela transformou-te
num homem rigoroso, tão rigoroso que só entende o pouco que ela te transmite.
Transformou-te numa Alma
fechada para o mundo, transformou-te num sorriso que não abre, numa vida não
entendida.
--Mas a mente diz-me que a
vida tem um fim, para além dela nada mais existe!
--A tua mente, mente.
Fala pela voz do intelecto.
Fala pela voz do ego.
Fala pela voz dos surdos
de entendimento.
Fala pela voz do homem
adormecido.
A maior das ilusões da
mente que mente, é dizer ao homem que está acordado,
alimentando o seu ego, e a sua dita razão.
--Mas não é a mente parte
do homem?
--Dizes bem, ela é uma parte, não o todo.
--Mas a mente reage em mim
como um todo?
--Ela considera-se o todo,
acima dela só ela mesmo.
--Muitos dizem que ela fala a língua dos sábios, do homem das letras.
--Quem sabe não fala, só
fala quem é regido pela mente, que mente.
--Estás a dizer que ela é mentirosa?
--Um Espírito de Criança
não se fixa na mente.
Não se fixa nas suas eloquentes
palavras.
Não se fixa na sua
intelectualidade.
Fixa-se no todo, fixa-se no
Um.
Ela é a aparente, está
cristalizada na ilusão de que o homem está acordado.
--Então ela sempre tem
um lugar na vida do homem!
--Tem, e sempre teve. O
homem é que não a entendeu, e assumiu-a como o todo, quando na realidade ela
é apenas uma parte, não o todo como mundo da razão quer fazer querer.
Nada funciona bem quando
as peças são fragmentadas do todo.
Uma máquina só funciona,
quando todas as suas peças estiverem integradas umas nas outras.
A mente não é diferente da
máquina, ela só pode reagir conscientemente quando estiver integrada, não pode
reagir conscientemente quando está fragmentada.
O homem reage mal à vida
e escolhe muitos caminhos, porque se deixou fragmentar, desviou-se da Unidade.
Quando ele está
fragmentado, perde o Espírito de Criança, perde o controle de si mesmo.
Entra numa sociedade viciada e decadente, em que o fragmento é a lei da
sobrevivência, em que a lei da sobrevivência é a lei do mais fraco.
--Mas a
mente é um elo fraco?
--Não, ela é um elo
forte quando se integra no todo, quando não trabalha isolada; quando não usa o
intelecto para escravizar o outro homem com palavras envenenadas de ódio e
violência.
Quando não usa o poder para iludir os homens desejosos de auto-importância; desejosos de
quererem ser os primeiros nos jogos da vida, que é onde eles pensam que estão
os homens de poder, da sociedade virtual que criaram apenas com a mente,
que não emite os seus próprios raios de luz, apenas extensões, apenas
fragmentos, porque está fragmentada.
--Então a mente pode ser
perigosa?
--Tudo pode ser perigoso
quando agimos isoladamente, quando se age como se o coração não existisse,
como se a vida dependesse apenas da mente.
--Mas os grandes homens
do mundo usaram a mente para as suas descobertas.
--Somente com ela não
chegavam ao cimo da Montanha do Conhecimento, não abriam a Alma adormecida
no tempo.
Eles integraram todos os
elementos da Natureza num só entendimento, numa só verdade, na Unidade.
Sentaram-se na Montanha do
Conhecimento e deslizaram suavemente ao encontro de sabedoria, sem qualquer
manifestação de medo, sem qualquer manifestação de egoísmo; sem qualquer
manifestação do ego.
Apresentaram-se
humildemente integrados na vida, sem qualquer
máscara,
sem interferência do mundo exterior das circunstâncias.
--A mente não interferiu?
--Ela quando pacificada deixa
de ser mentirosa, integra-se
na Unidade.
Age de acordo com as leis do Universo, com a Sabedoria do Mundo e
a sua linguagem.
--Mas o homem mental diz que
ela comanda; torna-o rico no mundo dos homens!
--Quando o homem surge
num auditório para falar à multidão faminta de palavras, todos murmuram
baixinho:
Ali está um homem mental
de sucesso, dono do mundo da inteligência.
Só que esqueceram de um
pormenor: ele também se tornou dono do próprio homem,
dono do homem limitado pela
mente.
--Como é que um Espírito
de Criança sabe todas estas coisas, que o homem mental nem se apercebe que
existem?
--Porque continua ligado à
fonte, continua ligada ao mundo que ultrapassa a razão, continua ligada à sua
verdadeira origem, porque não deixou de ser quem é, apenas porque renasceu
para outra vida, para uma outra experiência.
Ela continua a ser o que
sempre foi: o filho a filha, o irmão a irmã, o pai a mãe, tudo num só
entendimento.
Para ela esta é apenas mais
uma forma de vida.
--O homem mental diz
que, se mentalizarmos com muita força, e se repetirmos muitas vezes as mesmas
coisas,
nós conseguimos o que
queremos.
--E o que dizem eles que tu
consegues?
--Eu já te disse, tudo.
--Mas
é no tudo que o homem mental alicia as mentes pobres e enfraquecidas
pelo seu longo sono, para lhes alimentar a aparência daquilo que não são,
daquilo que não querem encarar, daquilo que têm medo.
--Mas o tudo é uma
aparência?
--O tudo é só aparência, o
tudo é o isco para os que querem subir rápido da vida; para não terem de
trabalhar o todo; para os que não entendem que estão fragmentados desde o dia
em que perderam o Estado de Inocência, desde o dia em se sentaram num canto
do Universo à espera que a mente lhe resolva os problemas.
O Universo não é a mente,
só com a mente o Universo não existia, não existia o homem, não existia a
mente.
--Mas dizem que o poder da
mente muda o homem!
--Muda a sua atitude em
relação à sociedade, que os recebe como heróis do poder da mente.
Mas não muda a sua atitude
em relação à vida, não muda a consciência, que é mais um elemento do todo.
Um só elemento da Natureza
não muda nada.
Um só elemento da Natureza
não criou o Universo.
Um só elemento da Natureza
não criou o homem.
Se não criou o homem também
não criou a mente.
--Porque deixou Deus que os
homens alimentassem o poder da mente como um todo,
como a única forma de os
tornar sábios!
--Quem te disse que foi
Deus?
--Não é Deus o dono do
Universo!
--Deus não age isolado do
Universo, faz parte do Universo, tal como tu e eu.
Porque havia Ele de
interferir nos caminhos escolhidos pelo homem!
Se Ele mesmo lhes deu a liberdade de fazer o
que quisessem conforme a sua consciência, conforme o seu entendimento!
Ele não dá ao homem a
consciência, ele não pode dar aquilo que lhe é inerente.
A consciência também é uma
parte do todo, tal como a mente.
--Mas assim o homem fica
dividido, de um lado:
Por uma mente que lhe
mostra caminhos já feitos, e racionalmente explicáveis.
Por uma sociedade que segue
a mente racional, como se ela fosse o todo.
Por intelectuais que se
denominam senhores e donos da mente.
Por religiões que usam a
mente para mentir e manipular
todos aqueles que se
extraviam do seu chamado rebanho.
Por tradições que vivem
agarradas a um passado violento e desactualizado.
Do outro lado:
Uma consciência que não é
um alongamento da mente, não se pode alongar uma coisa que é inerente ao
próprio homem.
Um Espírito de Criança
com tu, que baralha todos os jogos e, diz que o homem vive em fragmentos,
que segue caminhos que não tem coração, que o homem apenas está aqui para
aprender.
E depois de tudo isto ainda
me dizes que a mente é mentirosa, porque ela não é o todo, mas apenas a parte
do todo.
Onde fica o homem no meio
de tantas divisões?
--Que divisões?
--És tu que dizes que
o homem está dividido.
--Eu?
--Sim tu o que tem um
Espírito de Criança.
Que tem olhos brilhantes e
profundos como o mar.
Que alimenta a Alma com
Amor.
Que não vive das aparências
do mundo.
Que se manifesta pela
Consciência...
--Eu...apenas tenho estado
a ver para além da mente, as guerras que estás a travar dentro de ti mesmo,
com tantas perguntas e respostas, são feitas e dadas por ti.
Que já confundiste a tua
mente que mente.
Já não sabes quem falou, se
fui eu, se foste tu!
--A minha mente diz que
foste tu quem falou.
Estás a tentar confundir-me
a minha mente!
--A tua mente, sempre a tua
mente.
Meu bom Amigo projecta as
tuas imensas vidas:
Para além do mundo
aparente.
Para além do que é
racionalmente explicável.
Para além da Eternidade.
--Mas não eras tu que
estavas a falar comigo?
--Já te disse que apenas
fui ao fundo os teus olhos, ao fundo da tua Alma, e observei, fui um
observador.
E como quem sabe não fala,
eu apenas brinquei com o teu Espírito de Criança, ela pediu-me, não pude
resistir ao seu pedido.
--E então eu!
--Tu o quê?
--Sim...eu, onde fico no
meio das vossas brincadeiras!
--Ah...onde ficas?
--Tu
passaste o tempo do tempo a jogar ao poder da mente que mente, dona da verdade.
Eu apenas segui a
consciência que alimenta as brincadeiras de um Espírito de Criança; que
alimenta a Alma do mundo; que alimenta a mente; que alimenta o homem; que
alimenta as suas muitas vidas;
que alimenta as suas memórias; que integram a
Unidade.
Quando
o homem perde a integração, perde a Unidade, perde o sentido da vida.
Senti que os seus olhos
resplandeciam Luz, Amor e uma Primavera que há muito eu tinha perdido nos
caminhos do tempo, para ganhar tempo, como se ele existisse.
O seu sorriso irreverente
de Criança entrou bem fundo na minha Alma, e se fundiu numa só, fundiu-se no
Um.
Deu-me a mão, caminhámos
juntos o caminho que nos conduzia à Montanha;
o caminho da Sabedoria; o
caminho da Verdade.
Deixei de ter medo de
perder a Vida, porque sabia que logo uma outra estava no meu caminho.
Deixei de ter medo de não
ser aceite na sociedade dos homens.
Agora voltava a ter um
Espírito de Criança.
Voltava a integrar o Um que
tinha fragmentado ao longo do tempo, tudo o que tinha desligado do mundo da
minha Alma estava novamente integrado.
Já a noite se perfilava no
horizonte do mundo dos homens grandes, para que no outro lado do mundo outro milagre se repetisse,
se repetisse neste imenso Universo, dos muitos Universos ainda por descobrir.
Não era a mente do homem que tinha criado este maravilhoso milagre, mas sim o Espírito de
Criança de um Criador atento, que habita em mim, e em todos os homens,
sejam eles mentais ou espirituais, porque todos eles são parte de um todo, só
o todo constrói milagres, a Unidade é um milagre que não pode ser fragmentada.
A minha Criança olhou
profundamente os meus olhos inocentes e irreverentes,
como só um Espírito de
Criança sabe olhar.
Um olhar profundo que vem
do fundo da Alma, uma Alma que só o Espírito alimenta e entende.
A essência pura, a
consciência pura de um Universo perfeito, que até poderemos chamar Deus, mas
de um Deus tão profundo, que a minha Alma diz que é Ele, e, eu “nu” de
preconceitos, e tão somente com o meu
Espírito de Criança,
acredito.
Esta imagem representa
todas as imagens anteriores num só entendimento,
representa o Universo do homem integrado na Unidade.
O círculo branco é o Ponto de Consciência que revela ao homem o Espírito de Criança,
que revela
ao homem a sua verdadeira identidade integrada no Todo.
É a pacificação do homem
com o Universo.
Carlos Campos
|